Ameaças e dificuldades técnicas colocadas pelos matacões para a Engenharia
Por Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos*
Introdução
Não são raras as paisagens brasileiras que se caracterizam pela exposição de matacões superficiais e sub-superficiais.
Na escala granulométrica adotada pela ABNT os matacões corresponderiam a elementos rochosos com diâmetros médios variando de 0,2m a 1,0m. Porém, a prática geotécnica e os dialetos de obras consagraram (versão adotada nesse presente artigo) o entendimento pelo qual os matacões correspondem a grandes blocos isolados de rocha com diâmetros médios variando de algo como algumas dezenas de centímetros a vários metros. Agrega esse entendimento geotécnico e informal que os matacões normalmente têm superfície arredondada, podendo ocorrer naturalmente no interior de matriz de solo como também na superfície de terrenos. Da mesma forma, podem ocorrer in situ, ou seja, no próprio espaço geológico em que foi formado, ou nos sopés de encostas serranas, levados por seu próprio rolamento ou por movimentos de massa de grandes proporções.
A origem mais comum dos matacões está no intemperismo diferenciado de maciços rochosos pouco fraturados. Corresponderiam a núcleos petrológicos mais resistentes à alteração química. Não são todos os tipos de rocha que produzem matacões. Das rochas ácidas as granitóides são as que mais comumente geram matacões, sendo que a presença desses chega até a ser um bom indicador para esse tipo de rocha.

Foto ARSantos.
A detecção da presença de matacões em um determinado terreno
É importante que a Engenharia perceba que as sondagens, diretas (mecânicas) ou indiretas (geofísicas), são sempre recursos complementares a uma boa caracterização geológica local. A primeira caracterização geológica deve ser feita por geólogos com a utilização de consulta bibliográfica, análise de imagens e fotos aéreas e métodos rotineiros investigativos de campo. Sem essa caracterização geológica preliminar o uso de sondagens aleatórias pode certamente trazer mais problemas do que soluções: custos elevados de investigação, interpretações geológico-geotécnicas equivocadas, escolhas indevidas de soluções de engenharia.
Uma vez decidida uma sondagem mecânica para a confirmação de uma hipótese geológica, o mais correto é trabalhar-se com um equipamento apropriado para sondagens mistas (percussão/rotativa), ou seja, equipamento capaz de ultrapassar um eventual matacão e dar continuidade à perfuração. No caso das sondagens geofísicas, o uso do método elétrico (mede diferenças de condutividade elétrica) tem propiciado ótimos resultados.
Ameaças e dificuldades técnicas colocadas pelos matacões para a Engenharia
Primeiramente é preciso lembrar que os matacões, especialmente quando em superfície, sempre foram muito úteis ao homem. Oferecendo abrigo e constituindo-se nas primeiras fontes de blocos de rocha para fins construtivos. Em muitos lugares do mundo ainda atendem esse tipo de demanda e mais modernamente constituem-se também em atrativos estéticos e paisagísticos.
Para a construção civil de maior porte os matacões criam problemas especialmente em três tipos de situações: fundações, encostas naturais/taludes de corte e serviços de terraplenagem. No primeiro caso, por representar um impedimento físico de difícil superação para o aprofundamento de fundações profundas. No segundo caso, pelo risco de, com o descalçamento promovido por agentes naturais ou por uma intervenção de engenharia, movimentarem-se e atingirem com enorme poder destrutivo instalações civis. No terceiro caso, como obstáculos que complicam e atrasam os serviços gerais de terraplenagem.
Do ponto de vista de processos geológicos de superfície há permanente tendência de movimentação de matacões encosta abaixo. Essa movimentação é potencializada pela erosão superficial da interface de contato entre os matacões e o solo de apoio, com consequente descalçamento. Mais raramente há também a possibilidade do deslocamento de blocos através das pressões de troncos e raízes arbóreas em superfícies de contato entre blocos.
Os processos erosivos são acelerados com o desmatamento e também com eventual concentração de águas pluviais de superfície por eventuais instalações civis de montante da área.
Cortes na encosta para a instalação de empreendimentos podem provocar rupturas de talude com evidente poder de mobilização dos matacões encosta abaixo.
No caso de fundações profundas, os matacões representam maior problema para o estaqueamento executado por cravação (metálicas ou concreto), como também para outros tipos de estaqueamento que, ainda que não sejam executados por cravação, teriam sua execução impedida ou tremendamente dificultada na presença de um matacão, como por exemplo as estacas hélice contínuas. Ou seja, quando o projeto de fundações exige o aprofundamento além de um eventual matacão deve-se obrigatoriamente trabalhar com métodos que permitam a escavação de rocha sã. Caso das estacas-raiz e dos tubulões.
Em situações em que se está trabalhando com um tipo de estaqueamento impróprio à ultrapassagem de matacões, e eventualmente encontrado esse inesperado obstáculo, sugere-se utilizar somente para esse ponto um outro tipo de fundação para tanto apropriado, com indispensável realização de provas de carga como forma de se avaliar a eventual validação de uma fundação apoiada no próprio matacão para os efeitos de fundação pretendidos.
No caso de matacões superficiais presentes em encostas de alta declividade submetidas a intervenções de engenharia, por exemplo um corte, deve-se partir de um detalhado mapeamento de toda a área a montante da intervenção. Em condições florestais naturais eles são comumente contidos por troncos de árvores e enraizamentos, e envoltos pela vegetação por isso não sendo facilmente detectáveis.
Seu rolamento encosta abaixo pode se dar por desmatamento, pela erosão de sua base de apoio no solo ou por descalçamento direto quando muito próximos da intervenção de engenharia. Acidentes terríveis com rolamento de matacões têm sido verificados em obras viárias e edificações (até mesmo de altíssimo padrão) instaladas de forma tecnicamente inadequada em encostas naturais de alta declividade, sem maiores cuidados com um potencial rolamento de matacões de montante.
O problema pode ser resolvido por sua contenção (vide croqui) ou por sua remoção. A opção por remoção deve avaliar cuidadosamente o risco de promover o descalçamento de outras estruturas a montante.







Possíveis soluções de estabilização de matacões de encostas
É praticamente impossível quantificar com precisão o grau de risco que instalações civis de jusante estejam submetidas quanto ao processo de rolamento de matacões encosta abaixo. Porém, o risco é real e, considerado o efeito desastroso e trágico que um fenômeno desses pode causar, a convivência com esse risco é inaceitável, obrigando que todos os cuidados preventivos sejam tomados.
Como já referido, a causa mais comum do rolamento de matacões de superfície é a ação de processos erosivos em sua base de apoio. A retirada ou fenecimento natural de árvores de apoio concorrem também para o processo de desestabilização do bloco.
Assim, a linha geral de estabilização de um matacão superficial deverá objetivar a total interrupção de processos erosivos de sua base de apoio.
Como segurança complementar deverão também ser executados serviços de fixação de alguns blocos para os quais se evidencia situação mais evidente de desequilíbrio.
Para a estabilização dos matacões de encosta e total interrupção do citado processo erosivo de descalçamento indicam-se as seguintes providências:
A – implantação de canaleta de drenagem de montante com a finalidade de impedir que águas de chuva da área de montante escoem para a região dos matacões. Essa canaleta deverá conduzir as águas recolhidas em condições seguras até sistema de drenagem já implantado.
B – limpeza superficial e obturação dos contatos e vazios existentes na interface matacões/solo com argamassa de cimento e agregados.
C – escoramento de matacões ou conjunto de matacões com maior risco de rolamento através de barreiras de contenção ou atirantamento de blocos-chave.
Vide esquemas a seguir.



Observações:
- a decisão de onde e quando executar alguma das medidas propostas deverá ser tomada considerando os resultados de uma inspeção cuidadosa bloco a bloco em toda a área a montante.
- após a implantação dos procedimentos indicados deverá ser adotado um sistema permanente de monitoramento e manutenção, com inspeções técnicas bimestrais.
- Os pilares de sustentação da barreira de apoio deverão estar cravados pelo menos 3 metros no terreno, mesmo que para isso tenham que ser utilizado algum tipo de perfuratriz em rocha. Esses pilares e brocas deverão ser executados em concreto armado.
- Os tirantes utilizados na fixação de blocos-chave deverão penetrar ao menos 4 metros no terreno.
*Geol. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)
• Ex-Diretor de Planejamento e Gestão e ex-Diretor da Divisão de Geologia do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas
• Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Manual Técnico para Conservação e Recuperação de Estradas Vicinais de Terra”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”, “Manual Técnico para Identificação de Nascentes”, “Guia de Combate às Enchentes”
Fonte: O autor
Publicação Ambiente Legal, 03/08/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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