Relatório apontou os 107 pesquisadores que receberam mais citações em documentos de tomada de decisão entre 2019 e 2025
Se a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda às mães que alimentem seus bebês exclusivamente com leite materno durante os primeiros seis meses de vida, é porque evidências coletadas pelo grupo de epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) já mostravam a importância dessa estratégia na década de 1980. Se o governo federal reduziu para 15% o limite de alimentos processados e ultraprocessados nas escolas públicas em 2025, deve-se isso ao conhecimento gerado pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Universidade de São Paulo (USP), que desenvolveu o conceito de comida ultraprocessada: formulações e aditivos criados para substituir alimentos e preparações culinárias a fim de reduzir custos e aumentar receitas.
Esses são alguns exemplos de estudos conduzidos por cientistas brasileiros que ajudaram a moldar políticas públicas no Brasil e no mundo. Uma maneira de demonstrar esse impacto é mensurar a frequência com a qual pesquisas são citadas nas referências bibliográficas de documentos de governos, instituições internacionais e do terceiro setor em diversos países. Foi o que fez um relatório publicado em novembro pela Agência Bori em parceria com a plataforma Overton, empresa com sede no Reino Unido especializada em mapear a interface entre ciência e políticas públicas. O levantamento apontou os 107 pesquisadores do país que receberam ao menos 150 citações em 13.742 documentos estratégicos entre 2019 e julho de 2025.
Os cinco nomes mais citados concentram-se na UFPel e na USP. O epidemiologista Cesar Victora, da universidade gaúcha, é o primeiro da lista, com 231 papers mencionados em 3.109 documentos (ver tabela abaixo). Seu trabalho mais referenciado, de acordo com dados detalhados da Overton enviados a Pesquisa FAPESP, é um artigo publicado na revista The Lancet em 2013 que mostra que a má nutrição materna e infantil em países de baixa e média renda promove tanto a subnutrição quanto o crescimento do sobrepeso e da obesidade. Entre as conclusões, o estudo apontou que a desnutrição, além da amamentação inadequada, seria responsável por 3,1 milhões de mortes infantis por ano, o que correspondeu a 45% de todas as mortes de crianças em 2011.

Victora lembra que essas pesquisas vieram na esteira de um estudo publicado no fim dos anos 1980, que mostrou que a amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida protege contra infecções infantis. “Na época, esse conceito ainda não era amplamente reconhecido”, diz. A publicação teve grande repercussão e suas conclusões foram confirmadas em estudos do Peru e das Filipinas. “Políticas públicas nunca mudam com base em um único estudo. Com o acúmulo de evidências, em 1991 a ONU [Organização das Nações Unidas] e o Unicef [Fundo das Nações Unidas para a Infância] passaram a recomendar o aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses. Hoje, essa proposição é adotada por cerca de 140 países.”
Entre seus colaboradores está o epidemiologista Aluísio Barros, também da UFPel, que figura em terceiro lugar na lista da Overton, com 143 artigos citados em 874 documentos. Os dois papers de Barros mais mencionados em documentos de políticas públicas no período foram publicados na Lancet e também são voltados para a saúde materno-infantil. “Nossos estudos em saúde global, como cuidado pré-natal, vacinação e atenção ao parto, têm servido de subsídio para organizações internacionais como o Unicef, a OMS e a Gavi, the Vaccine Alliance.”

Outro nome da UFPel é o epidemiologista Pedro Hallal, quinto colocado na lista, com 72 artigos citados em 618 documentos. Hoje professor da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, seu paper mais citado em documentos ligados a políticas públicas é um trabalho divulgado em 2008 na Lancet – em que Victora, que foi seu orientador no doutorado, é um dos coautores – sobre desnutrição materna e infantil. Hallal também se destacou quando o assunto é atividade física e, durante a pandemia, sobre Covid-19. Entre seus artigos mais referenciados está um sobre os níveis globais de atividade física, que saiu em 2012 na Lancet. “Esse foi o primeiro estudo descrevendo os níveis de atividade física da população mundial, com dados de mais de 120 países. Mostramos que 30% dos adultos e 80% dos adolescentes eram inativos”, conta ele, que mantém o vínculo com a UFPel como pesquisador colaborador.
“Quando a OMS lança seu guia de atividades para a população, usa nossos dados. Vários países, quando lançam seus guias, também citam esse trabalho”, diz Hallal, que foi um dos coordenadores técnicos do Guia de atividade física para população brasileira, publicado em 2021. Ele avalia que o destaque da UFPel, com três pesquisadores entre os primeiros da lista, pode ser explicado pelos estudos de coorte de nascimento criados por Victora em 1982 – o primeiro acompanha até hoje cerca de 6 mil pessoas, e novos ciclos se iniciam a cada 11 anos. “Eles permitem um grande volume de pesquisas e ajudam a entender por que uma universidade do interior alcança tanto destaque internacional.”

Hallal enfatiza a importância do trabalho em colaboração. Em 2025, passou um ano na USP – instituição que reúne quase um quarto dos 107 pesquisadores – como professor visitante, com apoio da FAPESP, sob supervisão do médico epidemiologista Carlos Augusto Monteiro, que figura em segundo lugar na lista da Overton, com 142 artigos mencionados em 890 documentos.
Monteiro e seu grupo de pesquisa, o Nupens, desenvolveram o conceito de alimento ultraprocessado. Seu artigo mais citado em políticas públicas, com menções em documentos produzidos por instituições como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e a OMS, é justamente um trabalho que aborda como esses produtos passaram a dominar o sistema alimentar global e sua relação com o aumento da obesidade, publicado em 2012 na revista Obesity Reviews. Monteiro avalia que uma das causas da projeção de seus estudos é a própria natureza da epidemiologia nutricional: “Estudamos problemas que são grandes no Brasil e no mundo. Nosso núcleo tem estreita colaboração com os gestores de saúde pública, como o Ministério da Saúde”.

O grupo criou a classificação Nova, que organiza os alimentos segundo o grau de processamento industrial. Ela mostrou que o problema não está em nutrientes isolados, mas na substituição de padrões alimentares tradicionais por produtos ultraprocessados prontos para consumo, um fenômeno observado no Brasil e no mundo. “Com base nesses estudos, o Ministério da Saúde do Brasil publicou em 2014 o Guia alimentar para a população brasileira, pioneiro ao romper com o nutricionismo ao orientar as pessoas a comerem alimentos de verdade, preparados em casa, evitando produtos ultraprocessados”, observa. “Essa abordagem teve grande impacto na alimentação escolar, antes dominada pela indústria de ultraprocessados.” O pesquisador destaca que o guia também inspirou modelos adotados na América Latina e fora da região, como França, Índia e Canadá.
Ainda na USP, na área de clima e atmosfera, o patologista Paulo Saldiva aparece em quarto lugar no levantamento, com 100 artigos mencionados em 631 documentos. Entre seus papers mais influentes está o que trata do risco de mortalidade relacionada a temperaturas ambientais altas e baixas em 13 países, incluindo o Brasil, publicado em julho de 2015 na Lancet, além de trabalhos sobre poluição atmosférica e como ela impacta a saúde. Saldiva participou de dois marcos internacionais: em 2005, colaborou na definição dos novos padrões de qualidade do ar da OMS, escrevendo o capítulo sobre ozônio; em 2014, integrou o painel da International Agency for Research on Cancer, que avaliou a carga de casos de câncer atribuível à poluição do ar. “Considero minha participação na lista como a de alguém que produziu evidências científicas, não como formulador direto de políticas públicas”, observa.

Embora os primeiros lugares do levantamento sejam ocupados por pesquisadores ligados à saúde e nutrição, a maioria dos estudos citados (35%) aborda temas relacionados a ecossistemas e uso da terra, seguido por doenças infecciosas e vacina, e clima e atmosfera. O engenheiro-agrônomo Pedro Brancalion, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, ocupa o sétimo lugar na lista da Bori-Overton, com 106 artigos mencionados em 583 documentos. Seu trabalho mais citado, publicado na revista Nature em 2020, mostrou que, caso fossem restauradas apenas 15% de áreas prioritárias globais selecionadas sugeridas no artigo, seria possível evitar cerca de 60% das extinções previstas de espécies animais e vegetais. Nessas áreas estão, por exemplo, regiões de Mata Atlântica. “Esse estudo serviu de base para a estratégia de implementação da Década da Restauração de Ecossistemas da ONU, que vai de 2021 a 2030, bem como está orientando o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa do Brasil”, conta Brancalion.
O economista João Campari, da organização não governamental World Wide Fund for Nature (WWF), aparece em sexto lugar, com três artigos citados em 586 documentos. “Sinto-me lisonjeado como único representante de uma organização da sociedade civil, e não da academia, entre os primeiros colocados.” Seu artigo mais citado, publicado em 2017 na PNAS, avalia 20 ações práticas de soluções baseadas na natureza, como evitar o desmatamento, restaurar florestas e melhorar o manejo agrícola. O texto conclui que essas ações poderiam reduzir um terço das emissões necessárias até 2030 para limitar o aquecimento global a menos de 2 °C. Na época, Campari era assessor ambiental do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Dos 107 pesquisadores citados no levantamento, apenas 20,5% são mulheres e nenhuma delas aparece entre os 10 primeiros lugares. Essa distribuição não é homogênea: alimentação e nutrição concentram mais pesquisadoras (31,3%), seguidas por economia e finanças (28,6%). Em outras áreas, como doenças não transmissíveis e serviços, são 23,5%; seguidas por doenças infecciosas e vacinas (18,2%) e ecossistemas e uso da terra (13,5%). “Apesar de avanços, as mulheres ainda estão longe da igualdade, especialmente no acesso a financiamento e posições de liderança”, avalia a médica Ester Sabino, da USP, que figura na lista, com 37 artigos citados em 160 documentos. Seu trabalho mais mencionado foi publicado em fevereiro de 2021 quando analisou por que os casos de Covid-19 voltaram a crescer em Manaus mesmo após uma grande parte da população já ter sido infectada com a variante Gamma.
“O estudo teve grande repercussão. Na época, participei de discussões em reuniões da OMS”, lembra. O principal achado da pesquisa foi mostrar que a chamada imunidade de rebanho não era suficiente para impedir novas ondas da doença. O artigo foi citado, entre outras fontes, em diversos boletins epidemiológicos da OMS sobre a pandemia. “Por muito tempo, esse tipo de influência foi pouco valorizado”, observa Sabino sobre o relatório que dimensionou citações em documentos de políticas públicas. “Da exigência exclusiva de citações acadêmicas tem surgido nos últimos anos uma preocupação maior em avaliar o quanto a pesquisa científica impacta a vida das pessoas”, conclui.
Documento
Bori-Overton. Os pesquisadores brasileiros que mais influenciam políticas públicas. Relatório técnico. nov. 2025.
Fonte: Revista Fapesp
Publicação Ambiente Legal, 25/02/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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