A Reconfiguração Estratégica do Oriente Próximo
Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro*
Só desavisados ou deliberadamente cegos ensaiam surpresa com a ação estratégica de Trump.
O ataque cirúrgico contra o regime totalitário do Irã é etapa previsível da “virada” geopolítica ocidental contra o “Eixo do Mal”.
Os acontecimentos que se acumulam desde a morte de Qasem Soleimani, em 2020, até a grande ofensiva de 2026, mostram um reposicionamento profundo das forças no Oriente Médio. Os Estados Unidos, que por anos oscilaram entre contenção diplomática e intervenções pontuais, voltaram a assumir a dianteira no enfrentamento de regimes e grupos considerados desestabilizadores da ordem regional.
Esse movimento se articula com um realinhamento cada vez mais claro entre Washington, Israel e boa parte do mundo árabe.
A reação iraniana aos ataques — atingindo não só alvos israelenses e americanos, mas também países árabes — acabou reforçando a percepção de isolamento do regime dos aiatolás. O divórcio entre o radicalismo xiita e o universo sunita, que já vinha se aprofundando há anos, tornou-se explícito. Enquanto Teerã tenta manter sua influência por meio de milícias e ações indiretas, os países árabes pragmáticos se aproximam de uma agenda de estabilidade, integração econômica e segurança coletiva, deixando para trás velhos alinhamentos ideológicos.
Dentro desse contexto, a operação de 2026 ganha um significado ainda maior quando vista à luz da doutrina militar israelense. Israel sempre operou sob o princípio do ataque preventivo: neutralizar a ameaça antes que ela se torne irreversível. Essa lógica, que moldou decisões estratégicas desde a década de 1960, agora encontra eco na postura americana. O ataque conjunto não apenas atingiu centros de comando e infraestrutura militar iraniana, como também teve efeitos diretos sobre dois pontos sensíveis: o Estreito de Ormuz e a pressão militar indireta sobre Israel.
Ao reduzir a capacidade iraniana de fechar ou ameaçar o estreito de Ormuz — vital para o escoamento do petróleo do Golfo — a operação alivia tensões globais e limita a capacidade de chantagem bélica e econômica de Teerã. Ao mesmo tempo, enfraquece a coordenação de ataques de milícias apoiadas pelo Irã, que há anos mantêm Israel sob constante ameaça.
O impacto interno no Irã é ainda mais profundo. O regime teocrático depende da figura do Líder Supremo como eixo de autoridade religiosa, militar e institucional. A neutralização de Khamenei, nesse cenário, funciona como um golpe estrutural. Sem esse comando central, a Guarda Revolucionária perde coesão, as facções clericais e militares entram em disputa e a capacidade de coordenação das milícias regionais se deteriora. O regime, já pressionado por crises econômicas e protestos internos, vê sua legitimidade corroída e sua capacidade de projetar poder reduzida a níveis inéditos.
Esse abalo no Irã repercute diretamente na Rússia. Moscou e Teerã construíram, ao longo dos últimos anos, uma parceria estratégica baseada em complementaridades militares e diplomáticas. A Rússia dependeu de drones, munições e apoio político iraniano em momentos críticos. A desarticulação da infraestrutura militar iraniana, portanto, mutila esse eixo. A Rússia perde um aliado que ajudava a dispersar a atenção ocidental, a pressionar o Ocidente em múltiplos teatros e a sustentar operações militares prolongadas contra a Ucrania. Além disso, a instabilidade no Irã pode irradiar tensões para o Cáucaso e a Ásia Central, regiões sensíveis para a segurança russa.
Se por um lado a operação reduz drasticamente a capacidade convencional do Irã, por outro abre uma fase mais imprevisível. A principal preocupação agora passa a ser a retaliação assimétrica.
Sem condições de enfrentar diretamente seus adversários, o regime — ou o que restar dele — tende a recorrer a métodos irregulares: células terroristas, sabotagem de infraestrutura energética, ataques cibernéticos e ações de milícias remanescentes que escapam ao controle central. É a continuidade da guerra assimétrica descrita desde 2020, mas agora em um cenário de fragilidade interna e perda de comando.
O que se vê, portanto, é um ponto de inflexão. A ofensiva de 2026 não é apenas uma operação militar bem-sucedida; ela redefine o equilíbrio regional, aproxima ainda mais Estados Unidos e Israel, consolida o realinhamento árabe e enfraquece profundamente tanto o regime iraniano quanto sua parceria estratégica com Moscou.
O desafio que se impõe daqui para frente é lidar com a fase subsequente: a das respostas difusas, imprevisíveis e potencialmente prolongadas, típicas de um ator que perdeu sua força convencional, mas ainda mantém capacidade de causar danos por vias irregulares.
Referências:
PEDRO, Antonio Fernando Pinheiro, “MENOS UM TERRORISTA, MAIS UMA GUERRA” – Ao matar Qasem Soleimani, os Estados Unidos consolidam a guerra assimétrica e iluminam os contornos do conflito geopolítico com o Irã, in Blog “The Eagle View”, in https://www.theeagleview.com.br/2020/01/menos-um-terrorista-mais-uma-guerra.html
PEDRO, Antonio Fernando Pinheiro, “É PRECISO COMBATER AS RAÍZES DA BARBÁRIE” – Na luta pela democracia, não há espaço para tolerar intolerantes, in Blog “The Eagle View”, in https://www.theeagleview.com.br/2015/02/e-preciso-combater-as-raizes-da-barbarie.html
PEDRO, Antonio Fernando Pinheiro – “A Luta de Israel é de Todo o Ocidente”, in Blog The Eagle View, in https://www.theeagleview.com.br/2023/11/a-luta-de-israel-e-de-todo-o-ocidente.html
PEDRO, Antonio Fernando Pinheiro – “A Geopolítica em 2026 e o Ilusionismo Petista”, in Blog The Eagle View, in https://www.theeagleview.com.br/2026/01/a-geopolitica-em-2026-e-o-ilusionismo.html
*Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista, consultor estratégico e ambiental, com serviços prestados e estudos publicados junto a organismos multilaterais como a ONU (Unicri e Pnud), Banco Mundial, IFC, Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, governo brasileiro e grandes corporações. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados e diretor da AICA – Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental, é membro do Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Presidente da UNIÁGUA – Instituto Universidade da Água e Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa – API. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.
Fonte: The Eagle View
Publicação Ambiente Legal, 02/03/2026
Edição: Ana Alves Alencar
As publicações não expressam necessariamente a opinião dessa revista, mas servem para informação e reflexão.











