Por Fernanda Wenzel
- Supostas manobras políticas do governo francês impediram que o Brasil garantisse o mais alto nível de proteção ao pau-brasil (Paubrasilia echinata) em 2025, durante uma conferência internacional sobre o comércio de espécies nativas.
- A indústria da música, que cobiça a madeira brasileira para produzir arcos de instrumentos de corda — tida como a melhor do mundo para esse fim —, saudou o que chamou de “envolvimento decisivo” do presidente francês Emmanuel Macron nas negociações.
Segundo a imprensa francesa, Macron teria ligado pessoalmente para o presidente Lula para tratar do assunto, embora o governo brasileiro negue ter sido acionado. Nativo da Mata Atlântica, o pau-brasil vem sofrendo com a queda brusca de sua população.
No final de 2025, o Brasil parecia muito perto de conquistar o nível máximo de proteção internacional para o pau-brasil (Paubrasilia echinata), sua árvore-símbolo.
Em 26 de novembro, uma delegação brasileira estava em Samarcanda, no Uzbequistão, para participar da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites). Nela, 184 países e a União Europeia estabelecem regras para garantir que o comércio internacional não ameace a sobrevivência de animais e plantas.
A equipe brasileira estava confiante de que sua proposta para proteger o pau-brasil seria aprovada no evento. “Tinha um apoio massivo”, disse à Mongabay um integrante da delegação, que pediu para não ser identificado temendo retaliações. “Havia um clima de ‘vai passar’.”
Nativa da Mata Atlântica, a população de pau-brasil caiu 84% nas últimas três gerações, restando apenas em torno de 10 mil árvores adultas, segundo o Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora).
Nos tempos do Brasil Colônia (1530-1822), a espécie foi extensivamente explorada para atender à demanda da Europa pelo corante vermelho extraído de sua madeira. Além disso, desde meados do século 18, a indústria global da música valoriza a madeira por sua ressonância, durabilidade e flexibilidade, ideal para a produção de arcos de violinos, violoncelos e outros instrumentos de corda.
Cada arco pode valer até 7 mil euros (cerca de R$ 40 mil), tornando a espécie valiosa não apenas para o setor musical, mas também para o contrabando.
Em 2024, o CNCFlora elevou a categoria de risco do pau-brasil de “em perigo” para “criticamente em perigo” diante da diminuição da população da espécie. “O pau-brasil está realmente em situação crítica”, disse Felipe Bernardino Guimarães, analista ambiental do Ibama e especialista em identificação de madeiras, durante entrevista à Mongabay em 2025.

Para evitar que o pau-brasil chegasse ainda mais perto da extinção, na reunião de novembro, o Brasil propôs incluir a espécie no Anexo I da Cites, que proíbe totalmente o comércio internacional da planta. Desde 2007, o pau-brasil consta no Apêndice II, que é menos restritivo e permite o comércio regulamentado em alguns casos. Países como Argentina, Rússia, Índia e China apoiaram a proposta brasileira, mas outros, como Austrália, Canadá e a União Europeia, insistiram na criação de um grupo de trabalho para discutir as divergências e buscar consenso.
O Brasil poderia ter ido em frente e exigido a votação de sua proposta inicial, mas acabou aceitando a formação do grupo de trabalho. Passada uma semana, no entanto, uma reviravolta pegou todos de surpresa: o Brasil desistiu da proposta do Apêndice I. Em vez disso, concordou em manter a espécie sob as proteções do Apêndice II — ainda que com restrições adicionais, incluindo uma cota zero que proíbe o comércio de árvores removidas da natureza.
Até a publicação desta reportagem, os eventos que levaram à mudança inesperada não haviam sido esclarecidos. Observadores, porém, apontam para intervenções diplomáticas nos mais altos círculos.
A imprensa francesa e fontes consultadas pela Mongabay indicaram que o próprio presidente francês, Emmanuel Macron, pode ter intervindo pessoalmente para influenciar o resultado.
Segundo um membro da delegação brasileira, que também conversou com a reportagem em condição de anonimato, a intervenção de Macron teria resultado em uma reunião entre as delegações do Brasil e da França. Nesse encontro, a proposta brasileira teria sido suavizada para manter a espécie no Apêndice II. Em respeito às demandas iniciais do Brasil, estabeleceu-se a “cota zero para espécimes colhidos na natureza”, aprovada por unanimidade na cúpula da Cites, em 4 de dezembro.
A suposta intervenção do mandatário francês foi celebrada pela Iniciativa Internacional para a Conservação do Pau-Brasil (IPCI, na sigla em inglês), organização que representa fabricantes de arcos do mundo inteiro e exerce um dos lobbies mais fortes contra a inclusão da espécie no Apêndice I. Em nota publicada em dezembro, a IPCI exaltou o “apoio incondicional e o envolvimento decisivo” de Macron, sem detalhar a natureza dessa participação.
O jornal francês Le Point, por sua vez, disse que o líder europeu — que, em outras oportunidades, se mostrou crítico ao desmatamento na Amazônia — telefonou para Lula em 29 de novembro de 2025 para dissuadi-lo de buscar maior proteção comercial para o pau-brasil.

“Emmanuel Macron convenceu o presidente Lula a conter o Ibama, a poderosa organização de proteção florestal brasileira que lançou a luta contra a exploração implacável do pau-brasil”, reportou o jornal francês. “Sim, houve abusos, mas certamente não por parte dos fabricantes de arcos europeus. O Brasil, portanto, concorda em retirar sua solicitação: o pau-brasil permanece no Apêndice II, mas com anotações reforçadas.”
A Mongabay não pôde verificar a reportagem do Le Point sobre o suposto telefonema de Macron a Lula.
Apesar das divergências políticas sobre o livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, os dois aliados mantêm uma relação de proximidade. Em 2024, quando o líder francês visitou o Brasil, o encontro entre os dois chefes de Estado até rendeu uma chuva de memes, com internautas brincando que as fotos da reunião se assemelhavam a um “ensaio de casamento”.
Em resposta a um pedido da Mongabay, feito por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a Assessoria Especial do Presidente negou a existência de comunicações entre Lula e Macron para tratar do tema (leia a resposta na íntegra).
Por sua vez, a Secretaria de Comunicação da Presidência se recusou a confirmar ou negar a existência da ligação. No entanto, a pasta declarou que a decisão de manter o pau-brasil sob o Apêndice II foi fruto de “amplo diálogo” entre “o governo do Brasil, os países participantes da Cites e os setores produtivos e culturais” (leia a resposta na íntegra).
A diretora de Uso Sustentável de Biodiversidade e Florestas do Ibama, Lívia Martins, afirmou na página do órgão que “as preocupações legítimas do Ibama, que vem lutando nos últimos anos para combater a exploração ilegal e o tráfico internacional do pau-brasil, foram contempladas com o estabelecimento de cota zero para transações comerciais envolvendo a espécie de origem nativa”.
A Mongabay tentou contato com o governo da França, incluindo os respectivos conselheiros de Macron para comunicações nacionais e internacionais, Jonas Bayard e Jean-Noël Ladois; nenhum dos dois havia respondido aos questionamentos até a publicação desta reportagem. Em dezembro de 2025, a gestão francesa disse, em nota, que “trabalhou com seus parceiros para chegar a um consenso equilibrado sobre o comércio internacional da madeira de pau-brasil utilizada na fabricação de arcos”.

Charlotte Nithart, presidente da ONG ambiental francesa Robin Des Bois, esteve na conferência da Cites e soube das especulações sobre supostos esforços diplomáticos de Macron contra a proposta do Brasil.
“Na minha opinião, foi um escândalo”, disse à Mongabay. “Do ponto de vista político e científico, quando um país deseja proteger suas espécies endêmicas, o resto do mundo precisa seguir o exemplo e apoiar esse esforço.”
Segundo Nithart, a indústria musical francesa vem pressionando Macron desde 2022, quando o Brasil apresentou a proposta do Apêndice I pela primeira vez, durante a reunião da Cites no Panamá. Em 2025, durante uma visita oficial de Lula a Paris, a ministra francesa da Cultura, Rachida Dati, tentou discutir o tema com o líder brasileiro. De acordo com o Le Point, Lula teria dito que ela deveria conversar sobre o assunto com a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.
“Nós sabíamos, antes de ir a Samarcanda [para a cúpula da Cites], que o governo francês estava pressionando o Brasil politicamente”, disse a líder da ONG. Após a suposta intervenção de Macron, Nithart ouviu de um integrante da delegação brasileira que “a proposta do Apêndice I estava morta”.
Desafios para estabelecer novas regras
As tentativas de aumentar o controle sobre o comércio do pau-brasil datam de 2007, quando a espécie entrou no Apêndice II da Cites — que estabelece requisitos, como autorizações de exportação e uma licença especial do Ibama. No entanto, a restrição se aplicava apenas a toras e à madeira serrada, isentando dessas obrigações os arcos já finalizados.
Em 2018, uma operação do Ibama revelou uma série de fraudes entre fabricantes brasileiros de arcos para ocultar a origem ilegal da madeira, reforçando a necessidade de maior rigor na regulamentação. Em 2022, o Brasil falhou em sua primeira tentativa de incluir o pau-brasil no Apêndice I, mas conseguiu incluir os arcos finalizados nas restrições do Apêndice II.
Desde então, outro problema surgiu: as barreiras se aplicam apenas ao país exportador — ou seja, o Brasil. Assim, arcos fabricados em outros países a partir da madeira brasileira contrabandeada não estão sujeitos ao mesmo controle.
Segundo Guimarães, essa lacuna incentiva o tráfico ilegal da espécie. Ele conta que passageiros já foram flagrados em diferentes aeroportos do país tentando deixar o território brasileiro com malas cheias de madeira irregular. “Se estamos enviando madeira, é porque alguém lá fora a está recebendo”.

Diante da persistência do contrabando, o Brasil decidiu reapresentar a proposta do Apêndice I na reunião da Cites em 2025. Caso a mudança fosse aprovada, toda a madeira de pau-brasil — seja bruta ou acabada — só poderia cruzar as fronteiras mediante prova documentada de que foi extraída antes de 2007, quando a espécie foi incluída no Apêndice II, ou acompanhada de autorização especial de órgãos ambientais.
A restrição prevista no Apêndice I também se aplicaria a músicos viajando com instrumentos feitos de pau-brasil; sem a devida documentação, eles poderiam ter seus arcos confiscados.
De acordo com a IPCI, isso “não só teria condenado a profissão de fabricante de arcos, mas também prejudicado seriamente a prática musical, a vida de conjuntos e orquestras em todo o mundo”. Edwin Clément, fabricante de arcos francês e membro da IPCI, disse que “listar o pau-brasil no Apêndice I significaria o fim de uma civilização” e que países como o Brasil estão “minando a cultura ocidental”.
Segundo o IPCI, cerca de 350 mil árvores de pau-brasil foram plantadas em território brasileiro nos últimos 25 anos e devem estar prontas para abastecer a produção de arcos em cerca de quatro décadas — evitando, assim, o corte de árvores nativas. “Os estoques estão diminuindo, mas as árvores plantadas logo atingirão a maturidade. Este é um período crítico de transição”, disse a entidade internacional.
Segundo Guimarães, no entanto, o número de árvores plantadas é desconhecido e ainda não é possível saber se a qualidade da madeira plantada é adequada à produção de arcos.
Os Estados Unidos também se opuseram à inclusão da espécie no Apêndice I. Em nome de quase 90 organizações globais, o governo de Donald Trump apresentou um documento aos participantes da Cites dizendo que as novas regras “teriam um efeito devastador na fabricação artesanal de arcos, um comércio que já é muito pequeno em tamanho e em produção anual”.
Depois que o Brasil retirou inesperadamente sua proposta na reunião de novembro, signatários do tratado concordaram em manter a espécie no Apêndice II, mas com uma modificação: a partir de 5 de março de 2026, nenhum dos 185 membros da Cites poderá exportar produtos de pau-brasil para fins comerciais. Os músicos, no entanto, terão permissão para cruzar as fronteiras carregando arcos feitos a partir da madeira.
“Então, atendeu à expectativa do Ibama, que era proibir o comércio”, disse Guimarães. “Mas deixou aberta a possibilidade de transportar os arcos para exposições, para acompanhar músicos em orquestras e para reparos.”
O problema, segundo ele, é a dificuldade de avaliar a legalidade dos arcos transportados fronteira afora. “Vai ser um grande desafio, porque é nas aduanas que vai haver a interpretação se aquilo é um músico transitando com o arco para tocar ou o músico levando o arco para vender”, disse o especialista. Os países envolvidos também concordaram em incentivar a pesquisa de materiais alternativos, avaliar a qualidade das árvores de pau-brasil cultivadas em plantações, apoiar a proteção das áreas nativas e criar um sistema de rastreamento de arcos de madeira.

Maud Lelièvre, presidente do comitê francês da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), autoridade global que classifica o pau-brasil como “espécie em extinção”, disse que essas medidas não bastam para garantir a sobrevivência da árvore brasileira no futuro.
“Fortalecer a rastreabilidade dessa madeira sob o Apêndice II continua sendo insuficiente para combater o tráfico ilegal”, disse a representante, acrescentando que certificados falsos estão em circulação e alimentam o comércio ilegal.
A França tem uma longa tradição na produção de arcos, principalmente durante o século 18, com o trabalho de François Xavier Tourte. Conhecido como o “Stradivarius dos arcos”, ele lançou as bases para o modelo de fabricação francês — considerado o melhor do mundo até os dias de hoje.
Embora as escolas de produção de arcos tenham desaparecido na década de 1980, a transmissão do conhecimento perdura da maneira tradicional. Em oficinas, os mestres archetiers, como são chamados os fabricantes da peça, transmitem suas habilidades aos aprendizes na bancada de trabalho.
“É uma indústria que movimenta muito dinheiro”, disse Guimarães.
Nem todos os músicos concordam com a tese de que não existam substitutos para o pau-brasil. Pesquisadores já exploram outros materiais de forma ativa, como os feitos a partir de fibra de carbono. Outros se concentram na fibra de linho, que oferece a vantagem de ser renovável, de produção local e de ter características de amortecimento mecânico bem semelhantes às da madeira brasileira.
“Afirmar que a classificação do pau-brasil no Apêndice I significaria ‘o fim das turnês dos músicos’ é um exagero”, disse Lelièvre. “Na década de 1990, as teclas dos pianos eram feitas de marfim. Desde então, o marfim foi incluído no Apêndice I da Cites. E os pianistas ainda existem.”
Fonte: Mongabay Brasil
Publicação Ambiente Legal, 28/03/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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