Por Jorge C. Carrasco/Mongabay
- Um projeto-piloto na Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, no sudoeste do Pará, está fornecendo eletricidade 24 horas por dia por meio de um sistema integrado de painéis solares e turbinas hidrocinéticas fluviais.
- As turbinas do projeto utilizam sistemas de filtragem especializados e grades de rotação lenta, projetadas para gerar eletricidade sem prejudicar a fauna local.
- Aproximadamente 990 mil pessoas na Amazônia brasileira ainda não têm acesso à eletricidade, apesar de a região abrigar algumas das maiores usinas hidrelétricas do mundo.
Quando o governo brasileiro aprovou a construção do complexo hidrelétrico da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, o megaprojeto prometia transformar o panorama energético nacional e local, gerando uma grande oferta de energia limpa para abastecer indústrias, iluminar residências e levar desenvolvimento a comunidades isoladas que, historicamente, tinham pouco ou nenhum acesso à energia elétrica. No entanto, quase uma década após o início das operações da quarta maior usina hidrelétrica do mundo, em 2016, a realidade é diferente.
Comunidades vulneráveis que dependiam da pesca foram severamente afetadas economicamente, e muitas famílias ribeirinhas continuam sem conexão à rede elétrica ou pagam algumas das contas de luz mais altas do país.
Um estudo publicado em 2024 por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), identificou, por meio de uma pesquisa domiciliar com 500 famílias em Altamira, no Pará, que a grande maioria delas (86,8%) sofreu um impacto negativo nos preços da energia elétrica após a construção de Belo Monte. A pesquisa reforça as evidências de que não só o “progresso energético” prometido no passado nunca se concretizou, mas também que as tarifas dispararam, enquanto as comunidades que vivem à sombra da maior barragem da Amazônia ainda enfrentam apagões e custos proibitivos.

As famílias de baixa renda em pequenas comunidades da região amazônica foram as mais afetadas, não só pagando mais pela eletricidade, mas também dependendo de geradores a diesel para suprir as falhas de energia, o que acrescentou ao seu custo de vida os valores gastos com combustível.
“As pessoas estão bem debaixo da linha de transmissão, mas a energia [para a localidade delas] não vem daquela hidrelétrica. Essa energia vai para São Paulo e Rio, vai direto para lá, nunca passa pelas comunidades amazônicas”, afirmou Emilio Moran, antropólogo social da Universidade Estadual de Michigan, que liderou a pesquisa, à Mongabay.
Moran, que dedicou mais de três décadas à pesquisa de questões ambientais e sociais na Amazônia brasileira, incluindo o impacto de grandes projetos de infraestrutura na região, afirmou que uma energia mais barata e sustentável era “uma das grandes promessas [do projeto de Belo Monte], e foi por isso que as pessoas disseram ‘sim, nós queremos’”, mas que, após quase 10 anos de atividade, essa promessa ainda não foi cumprida.
Moran e seus colegas chegaram a essa conclusão após anos de pesquisa no território investigado. Em uma análise abrangente publicada em 2019 pela Fapesp, os pesquisadores revelaram que, apesar do investimento maciço, Altamira e as cidades vizinhas próximas à usina hidrelétrica enfrentavam infraestrutura frágil, aumento do custo de vida e tarifas de eletricidade mais altas do que antes da barragem. Para Moran, o modelo de transição energética excludente imposto após Belo Monte ignorou a lógica territorial e as necessidades das populações afetadas, perpetuando a desigualdade sob a bandeira da energia “limpa”.
“Como é possível que alguém em São Paulo pague R$ 300 por mês de energia e, em Altamira, ao lado de Belo Monte, [as pessoas] paguem R$ 1.500?”, disse Moran, que acredita que uma das principais causas dessa disparidade é a falta de políticas para a geração distribuída e a autonomia comunitária.
Atualmente, a Usina de Belo Monte opera com uma fração de seu potencial, utilizando apenas 23% de sua capacidade instalada em 2024, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). De acordo com dados da organização sem fins lucrativos Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), cerca de 990 mil pessoas na região amazônica (3,5% da população local total) ainda não têm acesso à eletricidade. Dessas, 19% vivem em terras indígenas. Como muitas comunidades próximas à barragem ainda dependem de pequenas redes movidas a diesel, os custos dos subsídios do governo podem chegar a US$ 2,5 bilhões por ano e também resultam em 1,6 milhão de toneladas de emissões de CO₂.
Em nota enviada após a publicação da reportagem, a Norte Energia, operadora de Belo Monte, diz que monitora a pesca da região há 14 anos e que “os resultados acumulados demonstram a sustentabilidade do ecossistema”. A empresa disse também que pratica uma das tarifas mais baixas do mercado.

Redes de energia
No entanto, nos últimos anos, pesquisadores têm trabalhado em um projeto experimental com comunidades locais para criar redes de energia independentes. Esses sistemas podem ser uma resposta ao aumento dos preços da energia na Bacia do Xingu e em outras regiões da Amazônia.
No coração da Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, no Pará, uma iniciativa energética comunitária, liderada por Moran com o apoio da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), pode abrir caminho para a autonomia sustentável. Lançada em 2023 como um projeto-piloto em três comunidades ribeirinhas próximas a Santarém, a iniciativa forneceu a essas comunidades sistemas de energia fora da rede, alimentados por painéis solares e turbinas hidrocinéticas fluviais, transformando o acesso à energia local, a oportunidades de emprego e a qualidade de vida.
“A ideia é exatamente essa: levar energia para contribuir com a melhoria da qualidade de vida dessas comunidades”, disse Lázaro Santos à Mongabay. Ele é um dos coordenadores do projeto e professor do Laboratório de Energias Renováveis (LER) do Instituto de Engenharia e Geociências (IEG) da Ufopa.
Segundo Santos, o projeto opera em um sistema integrado que combina energia fotovoltaica e energia produzida por turbinas, financiadas pela Universidade de Michigan e projetadas e fabricadas pelos alunos de engenharia mecânica da Ufopa, em parceria com uma empresa de manufatura local.
“Um sistema de painéis solares off-grid [independentes da rede elétrica] funciona de forma intermitente. Ele não opera 24 horas; funciona enquanto o sol está passando, e só”, ele diz. “Quanto à turbina, podemos aproveitá-la 24 horas. Ela fica girando 24 horas por dia, o ano inteiro.”

Santos explicou que as turbinas utilizam a energia do rio.“Vamos aproveitar a energia contida nessa massa de água se movendo no rio, colocando a turbina nesse fluxo, e ela vai usar essa energia e transformá-la em energia elétrica.”
Segundo ele, as turbinas são equipadas com um sistema de filtragem em rotação lenta e uma grade que evita causar danos à fauna do rio. Não funcionam em rios rasos, porém o sistema tem melhor desempenho em águas profundas.
Oséas dos Santos, que mora na comunidade de Porto Rico, dentro da Resex, disse que a instalação dessas soluções teve um impacto enorme em sua comunidade, que dependia fortemente do diesel.
“O nosso gerador consumia cerca de 60 litros por mês. E aqui o diesel custa R$ 12 o litro”, ele contou à Mongabay. “Já teve vezes que a gente tinha o dinheiro para comprar o diesel, mas não tinha onde comprar, só em Santarém. E de onde a gente vive, o barco sai na sexta e chega lá em Santarém no domingo.”
Santos disse que, quando havia diesel, a comunidade só podia usá-lo das 19h às 22h. “A gente tinha televisão, mas não tinha um freezer, porque não dava tempo de congelar nada nesse período”, comentou.
Quase três anos após o início do projeto, Santos comemora. “[Agora] a gente tem um freezer comunitário que é para toda a comunidade. Tem um sistema que funciona 24 horas, para internet e para o freezer comunitário. Todo mundo que já veio aqui na nossa comunidade e viu a nossa situação, é realmente bastante precária. Mas, com este equipamento, melhorou 100%.”

O projeto também criou um programa educacional para ajudar as comunidades a administrarem o sistema energético por conta própria. E agora, na comunidade de Porto Rico, por exemplo, três pessoas estão preparadas para fazer a manutenção dos equipamentos.
Evanilson Silva de Souza disse que viu como a vida de sua família e dos vizinhos mudou depois que os pesquisadores instalaram as turbinas em 2023. “Antes do projeto, a gente não tinha acesso a energia elétrica nenhuma”, contou à Mongabay. “A gente tentou botar internet com um sistema pequeno de bateria de outra comunidade, mas [o sistema] não aguentou o equipamento. A gente até comprou um painel solar e uma bateria, mas isso dava só cerca de uma hora de energia antes de acabar. Era assim que a gente vivia.”
O freezer coletivo para armazenar alimentos é um dos destaques do projeto, disse Santos.”Não é energia individual para cada família, mas o sistema nos apoia bem”. A comunicação também melhorou. “Se alguém ficava doente, a gente tinha que viajar para outra comunidade para chamar [agentes de saúde em] Santarém e pedir ajuda. Muitas vezes, as pessoas não conseguiam sobreviver aguardando. Agora a gente consegue chamar uma ambulância daqui. Isso fez uma diferença enorme, graças a Deus.”
Essa iniciativa, segundo Moran, atende atualmente a quase 200 pessoas, com planos de expansão para os próximos dois anos.

Fonte: Mongabay Brasil
Publicação Ambiente Legal, 20/05/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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