A ignorância é agressiva e não é neutra
Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro*
Neste pequeno ensaio, descrevo a relação que fiz, de uma obra literária russa, como espelho fiel da miséria moral e intelectual que enfrentamos no Brasil.
Dessa relação, concluo que a ignorância não é neutra; ela é agressiva.
O Espelho de Gorki: O Padeiro que Pensava
Máximo Gorki foi um autor central do realismo socialista. Sua obra aborda o submundo russo e a luta dos excluídos contra a fome e a exploração implacável.
Gorki me veio à mente num insight, num momento de absoluta desilusão com a mediocridade que hoje grassa o Brasil – do jornalismo abjeto à massa de idiotas que nos governa, domina a academia, a justiça e opera nossa economia.
Lembrei da obra Minhas Universidades (1923), o terceiro volume da trilogia autobiográfica de Máximo Gorki, que li ainda adolescente. Neste livro, Gorki narra sua vida em Kazan e aldeias vizinhas. O episódio específico refere-se a Mikhail Romas, dono de uma pequena loja ou padaria na aldeia de Krasnovidovo e mentor intelectual de alguns frequentadores e estudantes locais, fornecendo livros e discutindo ideias socialistas. O relato culmina num ataque inadvertido dos mujiques a Romas e seu negócio, em 1888. Destruição, incêndio e perseguição.
Os mujiques eram camponeses primitivos, de pouca prosa e raciocínio. Gorki descreve-os como seres embrutecidos pela miséria e pelo álcool. Eles eram fregueses do estabelecimento, permaneciam e até cochilavam às portas do local e, de repente, viram o pensamento e a biblioteca de Romas como algo “estranho”, uma ameaça.
A violência gratuita e o ódio, contudo, não nasceram de uma disputa clara, mas de um ressentimento surdo contra um “estranho” que pensava…
Gorki destruiu a visão romântica sobre o “povo russo” e moldou o realismo cru. Para Gorki, a ignorância era um inimigo tão letal quanto o próprio Czarismo.
Ao relembrar o incêndio na padaria de Mikhail Romas, constatei que aquelas chamas ainda ardem por aqui.
Máximo Gorki relata com crueza quase insuportável o linchamento moral e físico de um homem cujo único crime era possuir uma biblioteca e o hábito perigoso de pensar. Se Romas queria elevar o mujique por meio do conhecimento; o mujique, em sua amoralidade bêbada, lacônica e alheia, preferiu queimar os livros e perseguir o mestre. Esse mesmo cenário hoje se instala no deserto moral e intelectual brasileiro.
O Prefácio da Memória: A Casa-Biblioteca
Nascido e criado em uma casa-biblioteca, entre dezenas de milhares de volumes que meus pais colecionavam como quem guarda tesouros de uma civilização em fuga, aprendi cedo que a leitura livre é o único antídoto contra a servidão.
O cheiro do papel, a presença física de dezenas de milhares de livros, o acesso fácil e diário a um universo de temas me fez sentir que a leitura não era uma tarefa, era o ar respirável no lar.
O contraste de ter “universidades” em casa me preparou, ainda novo, para um mundo exterior que, gradualmente, começava a se fechar para a universalidade contida no verbo conhecer.
O Crepúsculo das Arcadas: Do Debate ao Dogma
Ao ingressar nas centenárias arcadas do Largo São Francisco – no final dos anos 70, seguindo os passos do meu pai (turma de 54), esperava encontrar ali um debate vibrante da inteligência.
No entanto, apesar de buscar uma dinâmica de constante questionamento, quebrar zonas de conforto travestidas de dogmas e consensos; salvo raras exceções, observei, ano a ano, no meio universitário, um adensamento crescente de posturas herméticas, sectárias, estreitas e amorais.
Em verdade, deparei-me com o início de uma longa e penosa descida ao inferno da mediocridade.
Desde então, a partir desse universo – e em meio a profundas transformações no ambiente político e cultural do País nos anos 80, vi o livre pensamento ser substituído pela ascensão dos idiotas de todos os matizes: repetidores de frases prontas e “engenheiros de obras feitas” que, sob o manto de um progressismo transvalorado, passaram a cultivar a ignorância como se fosse uma virtude revolucionária. Em suma, curvei-me à profecia de Nelson Rodrigues.
A mediocridade é solidária e… quando confrontada no espelho da verdade, busca refúgio no escárnio e na amoralidade sob um verniz ideológico.
A geração da minha época – a última dos boomers … e as que se seguiram, promoveram quadros excepcionais que, no entanto, constituem raras exceções no mar de celerados que hoje ocupam postos de comando nos três poderes da República, aparelham as academias, lotam redações e operam uma fraude histórica.
ProgressismoTransvalorado: A Ignorância como Fetiche
O projeto de “revolução pela cultura” (sonho de Gorki) foi sequestrado ainda na sua época… e desfigurado completamente a partir da última metade do século passado e, mais ainda, neste Século XXI.
Se o “progressismo” de Gorki, libertário e revolucionário, queria erradicar o mujique pela alfabetização e engajamento do proletariado à nova intelectualidade, o progressismo globalista, produzido pelos ideólogos de Frankfurt e “Socialistas do Século XXI”, quer hoje reduzir o mujique da era moderna – o chamado lumpensinato – à miséria intelectual. Manter milhões de excluídos reféns do auxílio estatal e fiéis ao slogan de momento.
A cultura foi trocada pelo controle social. O saber tornou-se um “pecado burguês” e a crítica um “ato antidemocrático”.
Se para Gorki a revolução era o combate à ignorância, para a atual camarilha “progressista”, a ignorância é um ativo político a ser preservado.
Nesse mesmo diapasão, harmonizam-se a miséria intelectual, a corrupção, o vício e a violência cotidiana.
Enquanto minha formação doméstica me permitiu conviver com o livre debate e a leitura plural ( e não fui o único a ter esse privilégio), a grande massa da pretensa intelectualidade das Arcadas e alhures preferiu o estelionato das narrativas vazias e a corrupção da ética, em favor do pragmatismo do poder.
Resultado: o Brasil transformou-se num deserto de homens de caráter e de ideias.
Conclusão: o Terreno Baldio e a Revolução
O padeiro Romas seria hoje acusado de praticar “atos antidemocráticos” por aqueles que transformaram milhões de brasileiros em espectadores passivos da corrupção consentida, escravos de programas sociais e reféns do rancor.
É notório… e só os cínicos recusam-se a enxergar: onde antes pulsava a busca pela autonomia, hoje reina o silêncio dos repetidores.
A conclusão é amarga: ao abandonarmos a elevação cultural em nome da gestão da miséria, não libertamos o povo; apenas garantimos que o fogo que destruiu a biblioteca de Romas continue aceso, agora alimentado pelas cinzas de uma literatura rasa e uma academia que desistiu de pensar.
O fogo na biblioteca do padeiro Mikhail Romas ainda arde, em busca de novos gazebos. A imagem deste ensaio contrapõe a brutalidade da ignorância – que destrói o conhecimento, à servidão digital e silenciosa de milhões de brasileiros – escravos do populismo e consumidores de narrativas prontas no lugar da cultura.
A ignorância, hoje, é um fetiche. Cultivada por uma elite vazia, que abandonou o livre debate, o valor da boa literatura e a busca pelo conhecimento.
Eu hoje me pergunto: onde estávamos quando trocamos a biblioteca pelo curral? Destruímos os jardins dos saberes e deixamos um terreno baldio, ocupado por insetos, ratos e ervas daninhas.
A verdadeira revolução, agora, será resgatar os valores morais e o cultivo do conhecimento.
Será necessário reconstruir bibliotecas, capinar e limpar o terreno, erradicar as pragas e semear, urgentemente, novos jardins.
*Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista, consultor estratégico e ambiental, com serviços prestados e estudos publicados junto a organismos multilaterais como a ONU (Unicri e Pnud), Banco Mundial, IFC, Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, governo brasileiro e grandes corporações. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados e diretor da AICA – Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental, é membro do Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Presidente da UNIÁGUA – Instituto Universidade da Água e Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa – API. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.
Fonte: The Eagle View
Publicação Ambiente Legal, 05/02/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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