Os EUA olham a Groelândia no cenário euro‑russo como motivo legítimo de preocupação
Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro*
Alguem da “lacrosfera” deveria mover o globo terrestre escolar e olhá-lo “de cima”… antes de palpitar sobre a decisão estratégica de Trump reforçar o flanco ártico-ocidental, baseando-o na Groelândia.
Geopolítica não é intuitiva. O que parece simples nas redes sociais e na imprensa mainstream, geralmente envolve cadeias de suprimento, rotas marítimas, acordos militares e pressões internas.
O fato é que a posição dos EUA no mundo faz com que qualquer movimento presidencial tenha impacto global, então análises rasas tendem a ignorar variáveis essenciais.
Já a “lacrosfera” costuma reagir mais ao simbolismo político do que ao cálculo estratégico (e isso vale tanto para quem apoia quanto para quem critica).
Olhar o mapa hemisférico “de cima” muda tudo. O planeta torna-se um sistema interconectado, onde decisões deixam de parecer caprichos e passam a ser parte de um jogo de forças.
1. Globalistas numa sinuca de bico
A União Europeia, sob a liderança de Ursula von der Leyen, buscou durante anos um protagonismo geopolítico “moral”, globalista, “multilateral” e performático. Isso resultou num quadro comportamental “esquizofrenico”, que usa pronomes neutros para tolerar intolerantes e releva ditaduras para bajular minorias barulhentas, que não difere retórica ideológica da dura realidade dos fatos; que quer protagonismo, mas não controla o roteiro.
Ao tentar “ter uma guerra para chamar de sua”, focando o teatro ucraniano, a UE ganhou duas frentes de combate e, agora, lida com pressões simultâneas vindas da Rússia e dos Estados Unidos.
Essa exposição revela um continente que reage mais do que age, deixando Washington como fiador involuntário da estabilidade regional.
2. A desconexão entre discurso moral e realidade estratégica
Setores políticos europeus, frequentemente associados ao progressismo institucional e ao ativismo performático, passaram décadas tratando temas complexos como slogans.
Essa abordagem funcionou enquanto a “lacrosfera” infernizava um mundo relativamente estável.
Agora, quando o tabuleiro geopolítico endurece, a distância entre guerra de narrativas e capacidade operacional efetiva torna-se evidente.
Nesse novo quadro, decisões tomadas com base em simbolismos, não em cálculo estratégico, ampliam o risco de crises com resultados funestos.
3. O degelo do Mar do Norte saiu do discurso e entrou na geopolítica
Durante anos, narrativas climatistas europeias alertaram que o Mar do Norte e o Ártico estavam degelando.
Agora, o gelo realmente recuou, abrindo rotas marítimas, recursos e novas áreas de disputa… e a volta súbita do gelo, com o novo horizonte tecnológico, pode igualmente encurtar distâncias sob e sobre a calota polar.
O tema, assim, deixou de ser retórico e se tornou estratégico.
Rússia, EUA e China já se movimentam há muito tempo, enquanto a Europa percebe tardiamente que o problema saiu das mesas dos militantes para ocupar a mesa das decisões estratégicas.
Para Washington, o fenômeno não se resume a programas de “descarbonização”. Significa um vetor a mais de tensão em regiões sensíveis.
4. O risco de uma escalada em duas frentes
A combinação da fragilidade europeia e suas ambições políticas mal calibradas, com mudanças geográficas no extremo norte do planeta, cria um cenário de múltiplas pressões simultâneas.
Os EUA já decidiram que não serão arrastados para conflitos no leste europeu e no Ártico, sem que seus aliados europeus tenham meios para sustentar o próprio peso estratégico de suas posturas.
5. O custo recorrente para os EUA
A preocupação americana, é direta:
quando a Europa se fragiliza, a conta recai sobre Washington.
Os EUA buscam, assim, evitar que o continente europeu se torne mais um foco de instabilidade gerado por decisões globalistas mal calculadas.
Nesta perspectiva, Trump segue raciocínio geopolítico cristalino. Ele simplesmente observa o teatro de operações do ártico, olhando-o de cima.
*Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista, consultor estratégico e ambiental, com serviços prestados e estudos publicados junto a organismos multilaterais como a ONU (Unicri e Pnud), Banco Mundial, IFC, Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, governo brasileiro e grandes corporações. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados e diretor da AICA – Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental, é membro do Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Presidente da UNIÁGUA – Instituto Universidade da Água e Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa – API. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.
Fonte: The Eagle View
Publicação Ambiente Legal, 20/01/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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