Separar educação e inovação é um erro que o Brasil não pode mais pagar
Por Nelio Fernando dos Reis, Ph.D.*
O Brasil insiste em tratar educação e inovação como agendas distintas. Essa separação pode fazer sentido na arquitetura burocrática do Estado, mas não resiste à análise econômica. Crescimento não é resultado de variáveis isoladas, mas da forma como elas interagem. Em termos formais, a produção de uma economia pode ser descrita como Y = θ ⋅ K ^ α ⋅ ϕ ^ (1 – α)*, em que ϕ (fi) representa o capital humano e θ (teta) o nível tecnológico. Quando essas variáveis operam de forma desconectada, o efeito multiplicador desaparece.
Partimos, então, de uma hipótese clara: H_0, de que educação e inovação não interagem de forma relevante sobre a produtividade, e H_1, de que existe interação positiva entre ϕ e θ, de modo que o impacto conjunto dessas variáveis sobre o produto, isto é, ∂Y/(∂(ϕ⋅θ)), seja positivo. A evidência internacional rejeita H_0. Países que combinam alto investimento em educação com forte capacidade de inovação apresentam ganhos exponenciais de produtividade. Não se trata de soma, mas de multiplicação.
Ao normalizar indicadores, o Brasil opera com algo próximo de ϕ=0,55 e θ=0,50, o que implica um nível de interação ϕ⋅θ=0,27. Já a Coreia do Sul, com integração institucional entre educação, indústria e tecnologia, apresenta ϕ=0,80 e θ=0,85, alcançando ϕ⋅θ=0,68. A diferença não é marginal, é estrutural. Inseridos na função de produção Y=θ⋅K^α⋅ϕ^(1-α), esses valores mostram que, mesmo com níveis semelhantes de capital físico, o produto potencial coreano supera o brasileiro de forma significativa.
Essa relação foi formalizada por Paul Romer, Nobel de Economia em 2018, associado à New York University, cuja teoria do crescimento endógeno demonstra que o conhecimento só gera crescimento quando incorporado à produção. Da mesma forma, Robert Lucas, Nobel de 1995 pela University of Chicago, mostrou que o capital humano gera externalidades positivas, mas apenas quando difundido no sistema produtivo. Em ambos os casos, o ponto central é o mesmo: o termo de interação ϕ⋅θ define a trajetória de crescimento.
O Brasil, contudo, organiza essas variáveis de forma fragmentada. O Ministério da Educação atua sobre ϕ, enquanto o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação atua sobre θ. Mas não existe um mecanismo robusto que maximize o produto conjunto dessas variáveis. Em termos econômicos, isso significa operar abaixo da fronteira eficiente, isto é, com Y_observado/Y_potencial <1.
A consequência aparece na estrutura produtiva. O Brasil permanece concentrado em setores de menor intensidade tecnológica e baixa agregação de valor. Enquanto países avançados capturam mais de 60% do valor nas etapas finais das cadeias globais, o Brasil permanece nas fases iniciais. Isso explica por que o retorno marginal do capital humano, isto é, ∂Y/∂ϕ, é baixo: o sistema não absorve o conhecimento produzido.
Diante disso, a integração entre MEC e MCTI deixa de ser uma proposta administrativa e passa a ser uma estratégia econômica. Se o Brasil elevasse o investimento em P&D de 1,2% para 2% do PIB e aumentasse a eficiência do sistema educacional, seria plausível atingir ϕ=0,65 e θ=0,65 em uma década, o que elevaria o termo de interação para ϕ⋅θ=0,42.
O impacto disso pode ser medido. Um aumento adicional de 0,5 ponto percentual ao ano na produtividade implica um crescimento acumulado de cerca de 10,5% em 20 anos, dado por (1,005)^20ⓜ-1┤. Em termos de renda, isso significaria elevar o PIB per capita brasileiro de aproximadamente US$ 10,3 mil para cerca de US$ 11,4 mil.
Na microeconomia, o efeito é ainda mais tangível. Com rendimento médio de cerca de R$ 3.600,00, um ganho de produtividade de 10% a 15% elevaria a renda para algo entre R$ 3.960,00 e R$ 4.140,00. Em um mercado de trabalho com mais de 100 milhões de ocupados, uma migração de apenas 2% para setores mais intensivos em tecnologia representaria entre 2 e 3 milhões de novos empregos qualificados.
Esse movimento desloca a curva de utilidade das famílias para cima e, simultaneamente, expande a Fronteira de Possibilidades de Produção, permitindo maior geração de bens sofisticados e serviços intensivos em conhecimento.
No fundo, a questão é matemática. O Brasil não cresce menos porque investe pouco. Cresce menos porque conecta mal. Integrar educação e inovação não é reorganizar ministérios. É maximizar a função de produção nacional.
E, como toda função, o resultado depende de como as variáveis interagem.
Nota:
*A equação é uma variação da Função de Produção Cobb-Douglas, um modelo fundamental para calcular a produção total de uma economia.Significado dos Componentes
- Y: Produção Total (Output). Representa a quantidade total de bens ou serviços produzidos.
- θ (Teta): Produtividade Total dos Fatores (PTF). Mede a eficiência, tecnologia e inovação.
- K: Capital. Representa o estoque de maquinários, fábricas, ferramentas e infraestrutura utilizados na produção.
- ϕ(Fi): Trabalho Representa a quantidade de mão de obra ou horas trabalhadas.
- α (Alfa): Elasticidade da produção em relação ao capital. É um valor estritamente entre 0 e 1 que dita a importância relativa do capital na produção. [1]
- 1 – α: Elasticidade da produção em relação ao trabalho. Garante que a soma dos expoentes seja exatamente 1.
Propriedades Econômicas Principais
- Rendimentos Constantes à Escala
- Produtividade Marginal Decrescente
*Nelio Fernando dos Reis é Ph.D., Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – IFSP. Head do Centro de Estudos Estratégicos da Iniciativa DEX. Possui mestrado, doutorado e pós-doutorado em engenharia de produção. Ex-Reitor de Universidade particular.
Fonte: The Eagle View
Publicação Ambiente Legal, 22/06/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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