A Apropriação Ideológica do Carnaval Transforma a Festa em Ofensa
Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro*
“A inveja é o verme roedor do mérito e da glória”
(Sir Francis Bacon)
O Carnaval foi herdado do paganismo e introduzido no mundo cristão como uma janela catártica de festejos e euforia. Um período de quatro dias, seguidos por quarenta dias de busca pela conversão e renovação espiritual (a quaresma), até a Paixão e a Páscoa.
Carnaval é o exagero, a crítica e a irreverência em festa. Um banho de bom humor coletivo.
Mas a licenciosidade de Momo, da mesma forma que libera alegria e descontração nos foliões, também acolhe “fracos de alma” (sem paz e sem calma). Estes últimos não festejam: mimetizam a folia para extravazar seus próprios transtornos.
Essa externalização de rancores pontuou com destaque o carnaval de 2026. Aqui e ali surgiram blocos de rua parecendo romaria, desfiles transformados em passeata, palavras de ordem travestidas de refrões e militância rasgando a fantasia.
Blocos identitários dedicados ao ultraje; família feliz “enlatada” em fantasias de ala de escola de samba; carros alegóricos escarnecendo de presos políticos; “sermões” pregando sectarismo do alto de trios elétricos para foliões de rua… compuseram um registro do “deboche engajado versão 2026”. Essas performances não se limitaram ao lúdico: buscaram agressivamente atingir a raiz moral e cultural do cidadão brasileiro.
Porém, tão irônico e efêmero quanto o próprio carnaval, a agressividade performática revelou-se sintomática: desnudou a fraqueza dos próprios protagonistas. E a vida seguiu o seu rumo…
Mas, façamos uma pausa para nos determos no detalhe do deboche engajado:
Deboche é recurso de quem se sente incapaz de lidar com a própria condição. Uma tentativa patética de apaziguar o desconforto interior diminuindo o outro.
A ostentação é irmã gêmea do rancor e da inveja – e o deboche serve a esse trio de ressentimentos como um óbvio mecanismo de defesa, uma máscara para esconder conflitos internos e medos que o ressentido não reconhece ou rejeita.
De outro lado, nosso temperamento humano é inato; integra nossa personalidade – que moldamos conforme interagimos socialmente. Essa interação é eticamente determinada pelo caráter, constituído pelo conjunto de valores, hábitos, vivências e princípios morais, formados pela educação familiar, pela religiosidade e pela compreensão do certo e do errado.
Expressamos nosso caráter por meio de nossas decisões, especialmente em situações difíceis… ou que pedem a contenção.
Pois bem, o grande alvo do deboche engajado em ritmo de samba, não foi apenas antecipar campanha eleitoral ou fazer proselitismo político partidário – quem pretendeu isso colecionou antipatias, desperdiçou tempo e perdeu dinheiro.
O objetivo sintomático do deboche foi atingir o caráter do cidadão brasileiro. E isso diz muito mais de quem performou, que a tentativa efêmera de causar danos.
Esqueçam a mesquinharia performática, as transvalorações sintomáticas ou os abusos patrocinados por uma política partidária miserável. O que devemos extrair dos atos é muito mais simbólico: o grande incômodo sentido coletivamente por uma parcela disfuncional da sociedade, ante o firme caráter do cidadão de bem. Nesse sentido, o deboche militante reduziu-se a uma tentativa barulhenta de gente desconforme, de ferir o silencioso tecido emocional do país.
Por óbvio, essa gente causou… mas não vingou.
Assim, o privilégio da boa formação e da dignidade permaneceu intacto, e o “atentado carnavalesco” de 2026, constituiu um efêmero ato falho em ritmo de samba, um reconhecimento reverso da força inabalável do bom caráter.
Nem sempre a arte une. Ela pode ser usada para aprofundar feridas. Manifestações culturais também guardam dissensos. Enfim, entender todo esse movimento é essencial para compreender o Brasil de hoje, para identificar o que vale a pena e o que deve ser descartado.
A grandeza incomoda. Mas através dela superamos o escárnio, a hipocrisia e a intolerância.
O deboche apenas revela a ruína de quem debocha. É efêmero como fato e como ato.
A moral, a ética, o caráter e os bons propósitos também festejam; permanecem, transcendem e dignificam… antes, durante e depois de cada carnaval.
*Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista, consultor estratégico e ambiental, com serviços prestados e estudos publicados junto a organismos multilaterais como a ONU (Unicri e Pnud), Banco Mundial, IFC, Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, governo brasileiro e grandes corporações. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados e diretor da AICA – Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental, é membro do Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Presidente da UNIÁGUA – Instituto Universidade da Água e Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa – API. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.
Fonte: The Eagle View
Publicação Ambiente Legal, 18/02/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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