Por Felipe S. Duran e Mylena Melo*
- Sete anos após o rompimento da barragem de Brumadinho, a Vale e sua arrendatária Itaminas retomam as atividades de mineração no mesmo complexo do Córrego do Feijão.
- A reabertura da Mina da Jangada ameaça a segurança hídrica da comunidade local, podendo rebaixar o lençol freático e comprometer nascentes que abastecem centenas de famílias na zona rural de Brumadinho.
- Moradores, familiares das vítimas e organizações denunciam a falta de informações sobre os riscos ambientais persistentes em um território marcado por um dos maiores crimes da mineração no Brasil.
BRUMADINHO, MG — Na comunidade da Jangada, na zona rural de Brumadinho, em Minas Gerais, a água que abastece as famílias que vivem ali vem de nascentes que brotam lá mesmo. “A água é nossa”, diz, com orgulho, em um vídeo no YouTube, Lorraine Nascimento, uma jovem da comunidade.
Foram os próprios moradores que, há mais de 30 anos, construíram o sistema de captação e distribuição da água das nascentes, sem qualquer apoio da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). Hoje, o sistema é gerido de forma autônoma por uma associação comunitária criada para este fim, e abastece centenas de famílias de Casa Branca, distrito rural no qual está inserida a comunidade da Jangada.
A professora Cátia Patrocinia Cruz Maia, que nasceu e cresceu na comunidade, como toda a sua família, faz parte da associação que cuida do sistema de captação e distribuição de água. Ela lembra que, antes da criação do sistema, existia um rego que cortava os terrenos e os moradores tiravam a água dali. Com o crescimento da comunidade, aumentou também a demanda pelo encanamento da água. Foi quando o pai dela, João de Sousa Cruz, se uniu a amigos e vizinhos para resolver o problema. A conexão da família com o território fica evidente também no apelido de João: Cátia conta que “ele era conhecido em toda Brumadinho como João Casa Branca”.
“Eles se juntaram e começaram a fazer o encanamento dessa água, de todas as famílias. As que puderam se juntaram para ajudar a comprar os canos. Não teve um centavo da prefeitura; foi um trabalho todo feito pela comunidade”, lembra Cátia.
Hoje, no entanto, a água da Jangada está ameaçada pela mineração da Vale, que há sete anos, em 25 de janeiro de 2019, provocou na região um dos maiores crimes-tragédia da história do país, matando 272 pessoas soterradas com a lama tóxica da barragem do Córrego do Feijão, que se rompeu, destruindo vidas humanas e também a fauna, a flora e o Rio Paraopeba.
Em agosto do ao passado, a Vale, em parceria com a mineradora Itaminas Comércio de Minérios S.A., retomou as operações da Mina da Jangada, que fica exatamente no mesmo complexo minerário do Córrego do Feijão, o Complexo Paraopeba, e a menos de 2 quilômetros das nascentes que abastecem a comunidade. As empresas querem ampliar o diâmetro e a profundidade da mina, o que pode rebaixar o lençol freático e comprometer a segurança hídrica de toda a região.

“No dia 1º de agosto de 2025, nós fomos surpreendidos pela reabertura da Mina da Jangada, que estava fechada desde 2019”, conta Cátia, que afirma que a empresa não fez nenhum tipo de consulta prévia à comunidade.
“A nossa preocupação é com a água, porque ela já diminuiu muito ao longo dos últimos anos. Aquele rego de água, que corria nos terrenos antigamente, quase não existe mais. Ele só reaparece na minha casa, por exemplo, na época das chuvas. Então o nosso receio agora é que essa água vá diminuindo ainda mais e deixe toda a comunidade sem abastecimento. A nossa luta, hoje, é por segurança hídrica”, afirma Cátia.
A licença ambiental que garante a continuidade e a ampliação da Mina da Jangada foi dada em 2018 pela Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais, a Semad, e é a mesma que permitiu a continuidade da operação da barragem de Córrego do Feijão antes de ela se romper. As duas minas receberam a licença em conjunto por estarem no mesmo complexo, a apenas 1 quilômetro de distância uma da outra. A licença de 2018, baseada em estudos feitos há pelo menos dez anos, foi expedida apenas 45 dias antes do rompimento da barragem de Córrego do Feijão.
Após a tragédia, a licença foi suspensa. Mas, em 2025, o governo do estado a reativou e transferiu sua titularidade para a Itaminas. O direito de exploração da lavra continua sendo da Vale, que apenas arrendou a mina à Itaminas. Na prática, a operação é realizada pelas duas empresas.

Na última semana, organizações da sociedade civil, familiares das vítimas do rompimento da barragem do Córrego do Feijão e moradores da região se reuniram em diversas ações, entre os dias 17 e 25, para pedir reparação e denunciar os riscos da reabertura da Mina da Jangada. No dia 25, houve uma caminhada da comunidade até o Córrego do Feijão.
“Andamos 8 quilômetros exigindo que a Vale e a Itaminas deixem as nossas águas em paz, para a gente poder acreditar no futuro”, conta a jornalista Carolina de Moura, moradora da Jangada e membro do Instituto Cordilheira.
Denúncia sobre insegurança hídrica
Há pelo menos cinco anos, Carolina vem denunciando aos acionistas da Vale, durante as assembleias anuais da empresa, os riscos de insegurança hídrica com as operações na região da Mina da Jangada. Ela é uma das acionistas críticas da mineradora, uma estratégia de luta organizada há mais de uma década pela Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale em que ativistas compram uma ação da empresa para ter direito de voz e voto crítico durante as assembleias anuais.
Em abril de 2025, Carolina informou aos acionistas durante a assembleia que a região da Mina da Jangada integra um território conhecido como Quadrilátero Ferrífero-Aquífero, que está sob risco crítico de estresse hídrico, segundo estudos. A Vale, afirma a jornalista, não oferece informações precisas sobre as operações na Mina da Jangada, e nem apresenta dados sobre o impacto no aquífero e ecossistema locais.

“Anos antes do rompimento da barragem no Córrego do Feijão, o geólogo da Vale, César Augusto Paulino Grandchamp, apresentava estudos e informações técnicas sobre a hidrogeologia da região para as comunidades de Casa Branca, Jangada e Córrego do Feijão”, expôs Carolina aos acionistas da Vale durante a assembleia. “Segundo ele, a expansão da Mina da Jangada não causaria danos às nascentes de abastecimento humano. Este profissional, junto com a Vale, a Tüv Süd e outras 15 pessoas, é réu no processo criminal sobre o rompimento da barragem. Além disso, ele teve seu registro profissional cassado pelo CREA-MG. Assim sendo, todo o detalhamento técnico apresentado pela Vale sobre a situação hídrica na Jangada não é digno de reconhecimento e confiança.”
Por carta, a Vale respondeu à jornalista dizendo que “todas as unidades operacionais e projetos em fase de implantação são precedidos por estudos hidrogeológicos detalhados, com o objetivo de avaliar potenciais impactos nas vazões e qualidade de água dos corpos hídricos de influência”. Disse também que “as nascentes localizadas no entorno das operações são devidamente identificadas, mapeadas e submetidas a monitoramento contínuo durante todo o ciclo de vida da mina”. A mineradora mencionou um relatório de 2024, que aponta que a maioria das nascentes cadastradas “continuam correntes”. “Dessa forma, entende-se que, apesar do período de escassez hídrica dos últimos anos […], não houve impacto nas nascentes dos córregos no entorno da Mina Jangada”, garantiu a Vale.

Um trecho da resposta, enviada em maio de 2025, chama a atenção. Nele, a Vale relembra que as atividades de lavra da Mina da Jangada estavam paralisadas desde fevereiro de 2019, logo após o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, que acarretou a suspensão da licença. Disse também que, “no contexto da retomada da lavra por terceiros, os estudos hidrogeológicos complementares — especialmente aqueles voltados à avaliação dos impactos do rebaixamento do nível freático — passarão a ser de responsabilidade do eventual arrendatário. Isso se deve ao fato de que tais estudos estão intrinsecamente vinculados ao modelo operacional do novo empreendimento, uma vez que o rebaixamento do aquífero está diretamente relacionado às atividades de lavra e ao controle hidrogeológico da cava”.
Em outras palavras: na época da resposta, já em vias de formalização do arrendamento da Mina da Jangada para a Itaminas, a Vale se adiantou em se eximir da responsabilidade por um eventual rebaixamento do aquífero que abastece as nascentes da Jangada, e atribuiu essa responsabilidade a “terceiros”. No caso, a Itaminas, que três meses após aquela resposta enviada a Carolina de Moura reativaria a cava de exploração a menos de 2 quilômetros das nascentes da Jangada.
O histórico da Itaminas é preocupante, diz Carolina. “Sete trabalhadores da empresa morreram durante o rompimento da barragem da Mina de Fernandinho, em Itabirito. Foi em 15 de maio de 1986, quando os operários realizavam a manutenção da represa. Às 14h20 daquele dia, houve uma explosão e tudo veio abaixo. A barragem operava além de sua capacidade”.
Em 2025, a Associação Comunitária da Jangada, juntamente com o Instituto Cordilheira, a Associação Comunitária de Moradores do Córrego do Feijão e o Movimento Águas e Serras de Casa Branca iniciaram um abaixo-assinado exigindo, entre outras coisas, o fechamento definitivo das minas da Jangada e do Córrego do Feijão, além da extinção do título minerário pelo governo federal.
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Fonte: Mongabay Brasil
Publicação Ambiente Legal, 29/01/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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