Lixo e chorume: tratamento caro

Publicado em Justiça e Política*
Tanque de tratamento de chorume do Aterro Sanitário de Goiânia. Foto: Instituto Brookfield

Tanque de tratamento de chorume do Aterro Sanitário de Goiânia. Foto: Instituto Brookfield

 

Por Walter Plácido

O tratamento do chorume, liquido produzido pela decomposição do lixo urbano, é caro e no Brasil poucos são os Aterros Sanitários que tratam seus efluentes in loco. Não estamos dizendo dos lixões que infiltram chorume solo adentro, contaminando lençóis freáticos e até mesmo águas subterrâneas, nem dos aterros controlados que rasgam o maciço de lixo construindo drenagens superficiais e laterais fazendo um grande esforço de manejar o chorume existente e evitar novas infiltrações, estamos falando de Aterros Sanitários devidamente licenciados pelos órgãos ambientais.

Boa parte desses Aterros possui sistemas precários de tratamento, outros encaminham seus lixiviados para Estações de Tratamento de Esgoto – ETEs e alguns tratam diretamente seus efluentes a um custo muito elevado.

chorume

Chorume é o líquido produzido pelo lixo acumulado.

Algumas tecnologias nacionais e internacionais são mais ou menos eficientes, boa parte consegue atingir os padrões de emissão de efluentes estabelecidos pelos órgãos ambientais, mas a questão crucial consiste no custo de implantação e operação desses sistemas.

O tratamento de chorume em ETEs dilui a carga orgânica diminuindo consideravelmente a demanda bioquímica de oxigênio (DBO/DQO). Mas e os metais pesados? E as concentrações de amônia, nitrogênio e outros parâmetros? Para além de serem licenciadas ETEs para tratamento de chorume, é preciso monitorar a saída desses efluentes ao serem despejados nos corpos hídricos,

Por outro lado, a um custo tarifário médio de 40 reais a tonelada na destinação final, fica difícil que Prefeituras, Consórcios e Concessionárias possam cuidar do chorume produzido em seus Aterros e ainda fazer o tratamento e valorização dos resíduos sólidos urbanos diante do que estabelece as boas práticas da engenharia, normativas ambientais e a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Todos pagamos pela luz, água, telefone e gás que consumimos e também deveremos pagar pelo esgoto e pelo lixo que produzimos. Produção – Consumo – Produção, isso é a logística reversa, a roda viva da reciclagem!

Agterro sanitário Santa Isabel

Agterro sanitário Santa Isabel

A geração média de lixo circula em torno de 1 kg/habitante/dia. Prevenir, coletar, separar, prensar, enfardar, transportar, compostar, incinerar, aterrar, tratar chorume e biogás, gerar energia; tudo isso é possível, necessário, vantajoso e possui custos como todo sistema de gerenciamento de serviço público de grande porte.

Tanto cidadãos quanto empresas, indústria e comércio devem ser responsabilizados solidária e proporcionalmente pelo custeio de um sistema de gestão de resíduos moderno, eficiente e sustentável. Se o custo e o financiamento do gerenciamento dos resíduos urbanos for igualado ao de outros serviços públicos essenciais, a coleta seletiva, a triagem, a valorização orgânica e energética do lixo começará a ser viabilizada de verdade. O tratamento do chorume e do biogás também se dará na esfera pretendida.

Ou seja, devemos sim exigir padrões de qualidade rigorosos no gerenciamento, tratamento e valorização do lixo urbano e seus subprodutos, mas também devemos responsabilizar categoricamente a cadeia produtiva geradora dos resíduos sólidos e financiar com responsabilidade e transparência o custeio de um sistema que contemple os princípios elementares de gestão ambiental e o que estabelece a Lei.

WalterPlácidoIIWalter Plácido Engenheiro Civil e Mestre em Ciências Ambientais pela Universidade Federal Fluminense – UFF. Foi Assistente Técnico do Ministério Público Estadual em inquéritos e ações civis públicas na área de resíduos sólidos, Assessor Especial da Superintendência do IBAMA no Rio de Janeiro e Consultor Técnico do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, realizando trabalhos para a Diretoria de Fauna e Recursos Pesqueiros do IBAMA.
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3 Comentários para “Lixo e chorume: tratamento caro”

  1. comentou em 4 de novembro de 2016 às 9:30

    Existem sistemas de evitar geração de chorume utilizando mantas biodegradáveis para cobertura de lixo em aterros sanitario. Estas coberturas evitam que a agua de chuva penetre no lixo do aterro, portanto o chorume gerado é extrictamente pela humidade que contêm o lixo mesmo.

  2. Alberto Silva Junior
    comentou em 2 de julho de 2018 às 21:32

    O problema do lixo existe!!existem também aterros sanitários licenciados capaz de receber todo lixo no estado de São Paulo. Hoje em dia 80% das prefeituras jogam seus lixos a céu aberto sem que nenhuma fiscalização impeça tal procedimento, o máximo que acontece é a CETES/IBAMA, notificar para fazer de conta que esta reprimindo o crime e que estão trabalhando. Nem o MINISTÉRIO PÚBLICO, toma as providências necessárias, que seria o fechamento dos “LIXÕES.Enquanto a Lei 9.605 não funcionar, nada sera resolvido até porque como já dito o custo é muito alto e a logística reversa no Brasil não funciona porque a corrupção é muito presente.Vou torcer que dentro de 50 anos a nova geração se conscientize e os Homens da Lei punam os criminosos.

    • Jurandir Firmino
      comentou em 21 de setembro de 2018 às 13:45

      Alberto, boa tarde!!!

      Verdade tudo o que vc disse porque até parece que não há interesse nos temas: destinação e tratamento dos efluentes, sendo que é muito grave a atual situação do Brasil e do mundo, só em 2015 segundo o Banco Mundial, foram gerados 3.4bilhoes de toneladas e isso esta contribuindo para epidemias, crescimento no numero de roedores enfim algo precisa ser feiro urgentement.

      Eng. Jurandir Firmino

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