A triste relativização da moral e nossa omissão diária
Por Maynard Marques de Santa Rosa*
O ritmo da mudança representa, para as gerações mais velhas, um desafio inaudito. O contato pessoal escasseia e, com ele, fragilizam-se as amizades. Visitas de cortesia, que alimentavam o espírito, pertencem ao passado. A carta manuscrita, que trocava sentimentos e opiniões, virou digitação eletrônica, fria e breve. E o cartão postal, onde o viajante registrava lembrança e apreço, simplesmente, sumiu.
A azáfama tecnológica criou o delírio das redes e relativizou valores morais e de conduta milenares que garantiam o equilíbrio social. Jovens passaram a projetar, compulsivamente, a própria imagem nas redes, sem o apoio da consciência. Até leis básicas da natureza são hoje denegadas para atender a vontades excêntricas. A etimologia foi falseada, a ponto de transformar sexo em gênero, para forçar o senso comum a aceitar variantes sociais do homem e da mulher.
Atualmente, quem não observa os fatos para discernir a verdade termina aspirado pelo turbilhão. Se a pessoa evita o entrechoque para se proteger, periga migrar da realidade para as bolhas virtuais que já infestam a sociedade, alastrando a esquizofrenia coletiva. Aos que vivem sem ideais, a esperança cede lugar ao desencanto e à fuga.
No Brasil, a metamorfose corrompeu, sobretudo, as instituições do Estado. O Supremo Tribunal Federal investiga, acusa, julga e condena os inimigos do sistema com sentenças irrecorríveis, como faziam as troikas de Beria e em linha com a declaração de um ministro militante: “Sigo as orientações de Lenin”. A Procuradoria Geral da República fecha os “olhos de ver e ouvidos de ouvir”, quando se trata de investigar aliados.
Por sorte, resta o aleatório da sincronicidade, que Jung chamava de efeito “acausal”, isto é, sem causa conhecida, a produzir fatos inteligentes que transcendem a percepção humana e alteram a ordem das coisas. O caso do banco “Master” escancarou a simbiose de interesses inconfessáveis da elite governante. Imaginando-se intocáveis, justiceiros e políticos mergulharam nas facilidades do dinheiro.
A opinião pública a tudo acompanha, inerte e perplexa. Os guardiões da lei e da ordem acautelam-se no aguardo, não se sabe de que. E o drama da vida real continua a desenrolar-se ao sabor do inesperado.
Ante a indiferença, é justo lembrar a memória tristemente célebre de Pôncio Pilatos, que marcou a História para sempre, por sua omissão perante a injustiça.
*General de Exército Maynard Marques de Santa Rosa é oficial reformado do Exército Brasileiro, formado pela Academia Militar das Agulhas Negras (Resende/RJ), tendo servido em 24 Unidades Militares do Território Nacional durante 49 anos de atividade na carreira. Possui mestrado pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Rio de Janeiro e doutorado em ciências militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, também do RJ. No exterior, graduou-se em Política e Estratégia, em pós-doutorado no U.S. Army War College (Carlisle/PA, 1988/89). Foi Ministro-chefe da secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), no Governo Bolsonaro (2019).
Fonte: The Eagle View
Publicação Ambiente Legal, 03/05/2026
Edição: Ana Alves Alencar
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