Version Bilingue FR/PT – @ Ethel Muniz*
O AMOR DO PRIMEIRO DE MAIO
I
No meio da multidão erguida
como uma maré de vozes e punhos,
a avenida pulsava
no ritmo antigo das revoluções,
e o asfalto guardava ainda
a memória quente
dos passos insurgentes.
II
Entre bandeiras e cantos,
entre a fúria erguida contra o céu,
uma mão surgiu do tumulto —
frágil e firme ao mesmo tempo —
trazendo um ramo de lírios-do-vale
como quem oferece uma promessa
à beira do abismo.
III
Ela gritava por um mundo novo,
o ventre cheio de futuro,
a garganta ardendo de justiça;
e seus lábios, vermelhos de palavras vivas,
traziam o gosto das manhãs novas
onde o amor e a luta
caminham no mesmo sangue.
IV
Eu a vi,
vendedora de primavera
na esquina das cóleras humanas,
oferecendo pequenas flores brancas
como pequenos levantes de luz
na poeira das multidões
e no cansaço dos séculos.
V
Quando seus dedos tocaram os meus,
o mundo suspendeu seu ruído;
e naquele breve contato,
maior que qualquer manifesto,
senti nascer
uma revolução secreta:
a do coração insurgente.
VI
Seus lábios vieram até mim
como uma bandeira de ternura,
acariciantes e ardentes,
abrindo no meu peito
uma barricada de desejo
onde o amor erguia suas chamas
contra a noite do mundo.
VII
Ela já não era apenas
a mulher da multidão,
nem a vendedora de flores;
tornava-se a própria primavera,
a flor viva da insurreição,
o perfume livre
do meu primeiro amor.
VIII
E desde aquele Primeiro de Maio,
cada revolução traz seu rosto,
cada ramo de flores brancas
acende sua memória em minhas mãos;
pois aprendi naquele dia
que o amor verdadeiro
é sempre um gesto de rebeldia.

L’AMOUR DU PREMIER MAI
I
Au milieu de la foule levée
comme une marée de voix et de poings,
l’avenue battait
au rythme ancien des révolutions,
et le pavé gardait encore
la mémoire chaude
des pas insoumis.
II
Parmi les drapeaux, les chants,
les colères levées vers le ciel,
une main surgit du tumulte —
fragile et ferme à la fois —
tenant un bouquet de muguet
comme on tient une promesse
au bord du vertige.
III
Elle criait le monde à refaire,
le ventre plein d’avenir,
la gorge brûlante de justice ;
et ses lèvres, rouges de mots vivants,
portaient la saveur des matins nouveaux
où l’amour et la lutte
marchent dans le même sang.
IV
Je l’ai vue,
vendeuse de printemps
au carrefour des colères humaines,
offrant des clochettes blanches
comme de petits soulèvements de lumière
dans la poussière des foules
et la fatigue des siècles.
V
Quand ses doigts frôlèrent les miens,
le monde suspendit son vacarme ;
et dans ce bref contact
plus vaste qu’un manifeste,
j’ai senti naître
une révolution secrète :
celle du cœur insurgé.
VI
Ses lèvres vinrent à moi
comme un drapeau de tendresse,
caressantes et brûlantes,
ouvrant dans ma poitrine
une barricade de désir
où l’amour dressait ses flammes
contre la nuit du monde.
VII
Elle n’était plus seulement
la femme de la foule,
ni la marchande de muguet ;
elle devenait le printemps même,
la fleur vivante de l’insurrection,
le parfum libre
de mon premier amour.
VIII
Et depuis ce Premier Mai,
chaque révolution porte son visage,
chaque bouquet de muguet
ravive sa mémoire dans mes mains ;
car j’ai appris ce jour-là
que l’amour véritable
est toujours un acte de révolte.
*Ethel Muniz
Artista plástico e intérprete performático brasileiro – França-Brasil
Fonte: O autor – Facebook
Publicação Ambiente Legal, 01/05/2026
Edição: Ana Alves Alencar
As publicações não expressam necessariamente a opinião dessa revista, mas servem para informação e reflexão.










