PARAGUAI: A TERRA DO PEQUENO PRÍNCIPE

Publicado em Ambiente Livre*

Visita ao centenário hotel que hospedou ícones do Século XIX e XX e… inspirou obra e desenhos de St Exupéry

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Hotel do Lago – no Paraguai. Um passeio pelo Túnel do Tempo

 

Por Paulo Morais

 

O Paraguai realmente é uma terra exótica, mágica, cheia de contrastes e surpreendente, onde presente, passado e futuro, aparecem sequencialmente, ao dobrarmos a próxima esquina.

Muitos conhecem a música Recordações de Ypacaraí , imortalizada no Brasil na década de 1950, nas vozes da inesquecível dupla Cascatinha e Inhana :

“ Numa noite linda eu te encontrei
Junto ao lago azul de Ypacaraí
Tu cantavas triste, quando cheguei
Velhas melodias em guarani
E foi tal o encanto que em mim nasceu
Que ia renascendo teu amor em mim
E um suave aroma nos envolveu
De tuas brancas mãos eu senti o calor
Que com tais carícias me deu o amor.
Onde estás agora, Cunhataí
Que teu suave canto não chega aqui
Onde estás agora, meu ser te espera
Com frenesi
Tudo te recorda meu doce bem
Lá no lago azul de Ypacaraí
Onde, para sempre, meu amor te chama
Cunhataí…”

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fotos de hóspedes ilustres do hotel

Pois bem, o que muitos não sabem, é que Saint Exupery, encontrou sua inspiração para escrever o seu O Pequeno Príncipe em terras guaranis. O que para mim foi uma surpresa, tanto quanto conhecer o lugar onde tudo aconteceu, o Hotel do Lago , de 1888, que parece um túnel do tempo, que nos remete à Belle Epoque e a um mundo do passado , que se recusa a desaparecer.

A atmosfera de decadente elegância, a decoração, os móveis dá época, tudo neste hotel que teve seu esplendor nas três primeiras décadas do século vinte e que foi lugar de descanso para artistas , intelectuais, políticos e milionários até a década de 1960, nos causa uma nostalgia de tempos que não vivemos e nos dá a impressão, ao entrarmos no salão de festa ou irmos ao bar, que daremos de cara com Ernest Hamingway, Villa Lobos, Augustin Pío “Mangoré” Barrios , Roosevelt, Charles de Gaulle, Joan Crowford, Marlene Dietrisch, entre tantos outros frequentadores ilustres, tão díspares entre si.
tres, tão díspares entre si.

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Avião de St. Exupéry no Lago de Ypacaraí

O guardião destas memórias de outros tempos, é Osvaldo Codas, diretor do hotel, que gentilmente nos acompanhou no passeio a San Bernadino e nos revelou uma versão da história deste clássico e best seller da literatura mundial e que agora dividimos com os amigos leitores.

Nos anos vinte, o aviador francês Antoine de Saint Exupéry, esteve em duas ocasiões no hotel, a convite da “Tigresa”, como foi apelidada Hilda Ingenhol uma aviadora de origem alemã que nasceu na África do Sul, que passava longos períodos no hotel e com quem viveu um tórrido romance.

Segundo Codas, numa destas estadias enquanto fumava um cigarro na varanda do hotel, em frente ao quarto de Ingenhol , após uma apaixonada noite de amor, observou que na praça em frente ao hotel onde havia todas as manhãs uma espécie de feira de artesanato de produtos indígenas, promovida por índias guarani quem moravam nas encostas do Cerro Patiño, enquanto elas expunhas seus produtos, um grupo de crianças todas da mesma idade, em sua maioria indígenas, mas, entre eles , um menino lourinho – filho de alemães que viviam em San Bernardino – de brilhantes olhos azuis , todas brincando juntas , irmanadas, com grande alegria, sem que houvesse na ingenuidade e pureza das brincadeiras infantis, qualquer diferença entre aqueles pequenos indiozinhos e aquele pequeno príncipe.

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A “jiboia” digerindo o elefante, no Lago de Ypacaraí

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A jibóia digerindo o elefante, de St. Exupéry

Aí nascia a história que cativa há décadas milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo, justamente por ser um dos maiores libelos já escritos contra a perda da inocência.

Acabando de fumar seu cigarro e ainda com esta imagem pungente das crianças brincando na sua mente, foi nadar nas mágicas águas do Lago de Ypacaraí, quando se defrontou com uma cena impactante: uma jiboia que comera um elefante!

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Detalhe do restaurante do hotel – volta no tempo

Ao entrar nas águas do lago, olhou para onde moravam as índias, mães daquelas crianças, Cerro Patiño, que fica na outra margem do lago, em Areguá e lá, olhando com olhos de criança, viu no Cerro a imagem da cobra que comera o elefante, embora à seus olhos de adulto mais parecesse um chápeu.

E ao comparar as fotos do Cerro Patiño com os desenhos de Antoine em sua obra imortal, nos é impossível não fazer esta conexão.

Só esta maravilhosa história que nos foi presenteada por Osvaldo Codas, já vale a viagem a San Bernardino, para se hospedar no Hotel del Lago, que transpira um glamour que se perdeu no tempo, mas que ainda está lá.

 

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Paulo Morais é advogado e consultor internacional de empresas.

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Apenas um Comentário para “PARAGUAI: A TERRA DO PEQUENO PRÍNCIPE”

  1. eduardo alexandre ricci
    comentou em 5 de janeiro de 2018 às 12:24

    E de onde saiu o elefante comido pela jibóia…? da Africa?

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